Você está no site do SINDRIBEIRÃO FEHOESP 360 Clique aqui para acessar o portal FEHOESP 360

Notícias

Cidade dos EUA foca saúde para vencer droga

Cidade dos EUA foca saúde para vencer droga

24/01/2012
Baltimore era conhecida como 'capital da heroína' e hoje trata dependentes

Cidade que já foi chamada de "capital da heroína" nos EUA, Baltimore tem uma receita para conter o problema: encará-lo como questão de saúde pública a ser tratada de forma coordenada por diferentes agências do governo, o setor privado e a universidade. E, claro, recursos.

Na cracolândia, em SP, uma tentativa de solução começou no dia 3, em operação com policiamento ostensivo e assistência social e de saúde numa segunda fase.

Baltimore, a 50 minutos de Washington, é conhecida há 30 anos pelo alto número de dependentes químicos - 10% da população, ou 62 mil pessoas, segundo o Departamento de Saúde.

Para lidar com estatísticas que só pioravam, a prefeitura tirou o problema das mãos da polícia e passou para o Departamento de Saúde.

Em 1996, criou o bSAS - sistemas de abuso de substâncias em Baltimore -, uma autarquia que congrega esforços em diferentes frentes e tem também a colaboração de ONGs como a do investidor George Soros.

Despejou dinheiro: US$ 60 milhões (R$ 106 milhões), no Orçamento de 2011, que a crise econômica no país deve cortar em 20% neste ano.

E passou a usar táticas para persuadir - e não obrigar - usuários a se tratarem.

A Folha visitou albergues, clínicas e a sede do bSAS para ver como a cidade onde as mortes por overdose superavam os homicídios em 1999 derrubou tal índice em 30%, de 327 para 229, de 2000 a 2009 (o dado mais recente).

"Se o Brasil quer lidar com o problema, a primeira coisa é colocar dinheiro", disse à Folha Clark Hudak, um psicólogo clínico que ajudou a criar e hoje administra a Recovery Network.

Para convencer a opinião pública, a prefeitura apresenta uma conta segundo a qual cada dólar gasto economiza US$ 12 em tratamento de emergência, polícia e Justiça.

Linda Trotter, que gerencia um albergue para dependentes sem casa e os encaminha ao tratamento, conta que, para atrair tanta gente (as 350 camas estão sempre ocupadas), evita sermões. "Não checamos histórico criminal. Só revistamos, para que não entrem armas nem drogas."

O albergue é uma espécie de rede de emergência dos dependentes de heroína.

Para dar o passo seguinte, a reabilitação, Linda convocou 13 agências do governo que operam no prédio serviços que vão desde a análise clínica até orientação e agências de empregos.

"Se pusermos os serviços do outro lado da cidade, entre esta porta e a próxima, perdemos o paciente."

Em outra ponta da cidade, em um dos bairros mais pobres, Lilian Donnard dirige a Glenwood Life, uma clínica que, afirma, recebe quem já está no fundo do poço.

Na recepção lotada, um aviso proíbe fumar no banheiro. "Nem cigarro, nem maconha, nem crack."

Sucesso
A estimativa convencional aponta que 1 em cada 3 dependentes de heroína se recupera, e os demais reincidem. Há sucesso para quem está no fundo do poço?

"Alguns conseguirão deixar a medicação [metadona, usada para tratar dependentes de heroína] em dois ou três anos. Outros jamais poderão viver sem ela, mas conseguirão progresso em outras áreas de sua vida. Como se mede sucesso?", questiona Linda.

Uma dessas é Katherine, que entrou na Glenwood quando levava Chloe na barriga. Há dois anos ela não usa heroína -a mesma idade da filha, que brinca na creche anexa. Mas continua na clínica, onde recebe metadona e já atende usuários, ajudando-os a pôr a vida em pé.

Loira, 38 e vestida de rosa, ela contradiz o padrão local de usuários, homens negros e jovens. Mas não o histórico: cresceu em família de alcoólatras e sofreu abuso de parentes e do primeiro marido. "E fui horrível com meus dois filhos mais velhos", diz, sem brecha para o assunto.

A espera para Glenwood - que é pública e atende afiliados ao Medicaid, a assistência médica federal aos mais pobres - pode levar três meses. Menos gestantes. Para elas, são 48 horas.

País tem tribunais especiais para casos de drogas
Um sistema de tribunais especiais para casos envolvendo drogas ajudou os EUA a estancarem a superlotação nas cadeias e a lidarem com aqueles que cometiam crimes e delitos não-violentos relacionados aos narcóticos de forma mais eficaz.

São as "drug courts", tribunais da droga que se disseminaram nos anos 1990 com vistas à reabilitação por meio de uma abordagem menos confrontacional.

Submetidas ao sistema de Justiça comum, respondem no nível municipal e se multiplicam no país. A primeira nasceu em Miami, em 1989, logo seguida por Baltimore.

Nesses tribunais, os réus passam por uma triagem rigorosa e, se considerados aptos, são convidados a trocar a cadeia pelo tratamento de dois anos.

A vigilância é rigorosa. Em Baltimore, os primeiros seis meses são passados em casas da Recovery Network.

No primeiro mês o interno só pode deixar a casa em caso de emergência, mas depois saídas acompanhadas são permitidas.

Passado esse semestre, há controle por meio da análise clínica duas vezes por semana para checar se o paciente se manteve longe das drogas. Quem não segue o tratamento, porém, tem a pena revertida para prisão. Hoje há 2.232 "drug courts" nos 50 Estados dos EUA.

Ex-usuários
Empatia e motivação são pilares do programa de recuperação de dependentes em Baltimore, e uma das medidas mais eficazes nesses aspectos foi empregar ex-usuários no projeto.

"Recrutamos cem agentes de recuperação, colegas que estão 'limpos' em média há oito anos e farão 20 horas por semana de trabalho voluntário com dependentes", diz Greg Warren, diretor do bSAS.

Os agentes operarão em hospitais, delegacias e nas ruas. A meta é atrair os que necessitam de tratamento, mostrando por meio de um recuperado que o sucesso é possível. "Queremos aproveitar os momentos de lucidez para motivá-los."

Além do novo programa, clínicas e abrigos já contam com usuários recuperados nos quadros - em todos os níveis. Linda Bilmes, que administra um albergue emergencial, está "limpa" há 11 anos. Sua experiência a ajudou a arquitetar um atendimento melhor.

Para universidade, trabalho é pilar de tratamento de usuário
Um dos programas de Baltimore para tratamento de dependentes planeja dar um passo ousado neste ano.

Psicólogos da Universidade Johns Hopkins estão negociando com empresas da região para distribuir um remédio extremamente eficaz contra o vício: empregos.

Desde 1996, o Centro para Aprendizado e Saúde, dirigido pelo psicólogo Kenneth Silverman, oferece tratamento que incentiva dependentes de heroína e cocaína (injetável, inalada ou crack) a ficarem sóbrios por meio da relação com um ofício.

Com apoio dos NIH (Institutos Nacionais de Saúde), o pesquisador montou um núcleo de informática com 45 postos de trabalho onde os pacientes (a maioria deles desempregados) tentam reiniciar a vida.

Ao mesmo tempo em que passam por tratamento psiquiátrico contra a dependência física da heroína, prestam serviços a cientistas da universidade que precisam de ajuda para tabular dados.

Trabalham todo dia, batem cartão, e três vezes por semana fornecem amostra de urina para teste de drogas. Se der positivo, o pagamento por aquele dia é reduzido à metade. Após a recaída, o paciente pode voltar a trabalhar no dia seguinte, desde que o teste dê negativo então.

O estímulo financeiro para ficar sóbrio é o que move o programa, diz Silverman. Em um dos oito testes clínicos que o pesquisador realizou, 79% das amostras de urina dos pacientes durante um ano estavam limpas.

Quando oferecia emprego, mas não punia os usuários por recaídas, a eficácia caía para 50%. No centro, quem consegue ficar longe da droga por mais tempo chega a fazer US$ 1.000 por mês.

De acordo com Silverman, o desafio é conseguir manter esse sistema depois do encerramento dos testes clínicos bancados pelo NIH, pois a receita vinda do serviço de tabulação de dados é pequena.

Silverman, porém, convenceu três empresários locais a entrarem numa parceria com a universidade.

Se o NIH aprovar a ideia, os pacientes poderão se candidatar à vaga de emprego em construtora, em prestadora de serviços em saúde e até em empresa de segurança.

Contratados, continuarão sob monitoramento de testes de urina. "Resta provarmos se essa iniciativa vai conseguir se pagar no longo prazo", diz Silverman. "Acho que vai."


Fonte: Folha de S. Paulo