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Diretor da FEHOESP orienta sobre gripe H1N1

Diretor da FEHOESP orienta sobre gripe H1N1

18/04/2016
O diretor da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FEHOESP) e vice-presidente do SINDHOSP, Luiz Fernando Ferrari Neto (foto ao lado), que é médico, fala sobre o surto de gripe H1N1 que vem assustando a população do estado de São Paulo nas últimas semanas. Segundo ele, estudos já comprovaram que o vírus não é mais agressivo que nos outros anos, e que estamos preparados – do ponto de vista sanitário – para lidar com o problema. 
 
Confira os principais pontos da entrevista, concedida à equipe de comunicação da FEHOESP:
 
Como o senhor avalia a efetividade da vigilância epidemiológica na detecção da chegada do vírus H1N1 no país?
 
Luiz Fernando: A vigilância epidemiológica dispões de um sistema bastante seguro e ágil para identificar e prever surtos e/ou epidemias, graças a um protocolo muito bem definido de notificações compulsórias frente ao diagnóstico de certas patologias. Dessa forma foi possível antecipar por quase dois meses a chegada do surto epidêmico da gripe imputada ao vírus H1N1.
 
Esse sistema ágil e padronizado de proceder frente a doenças de notificação compulsória nos permite ter uma certa tranquilidade em relação aos Jogos Olímpicos. 
 
Muito embora o sistema de saúde público atravesse uma fase extremamente difícil em nosso país, o trabalho de vigilância epidemiológica permanece preservado. 
 
Por conta do número de casos e de mortes, e da antecipação da chegada do vírus H1N1 – que geralmente aparece no inverno – cogitou-se a hipótese de que o vírus estaria mais resistente. É verdade?
 
LF: Realmente o vírus veio antes, e seus números já estão quatro vezes maior do que o mesmo período do ano passado. Mas estudos genéticos deram conta de que não houve mutação, segundo estudos realizados pelo Instituto Evandro Chagas. O vírus H1N1 que circula agora, em todas as regiões do país, é o mesmo que circulou em 2015. Então a vacina que usamos ano passado continua sendo eficiente para fazer a imunização da população. Também não foi demonstrado, de forma alguma, que o vírus possui alguma capacidade de provocar outras doenças ou de se propagar mais rapidamente entre a população. 
 
É importante ressaltar também que o alto número de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (59 no Estado de São Paulo e 72 no país, até 7 de abril de 2016) decorreu em 100% dos casos pela contaminação do vírus H1N1. O que afasta qualquer hipótese da existência de outro vírus. Esta também é uma notícia alvissareira, porque mostra que estamos diante uma doença já conhecida, e não diante de algo que não conhecemos.
 
Outra coisa importante: de todos os casos que foram a óbito, todos apresentavam comorbidades. Isto é, os pacientes já possuíam uma doença de base, como câncer, asma, diabetes etc. Portanto, a população sadia, que não possui doença crônica, pode se sentir mais protegida, e não precisa correr para tomar vacina. Se uma pessoa saudável contrair H1N1, vai passar por ela e em no máximo sete dias deverá ter sua saúde restabelecida. 
 
Também houve muitos relatos de pessoas que não encontraram o Tamiflu – medicamento utilizado para tratar a gripe H1N1 – nas farmácias. Há desabastecimento?
 
LF: O antirretroviral mais conhecido para tratar a H1N1 é o Tamiflu, uma droga fabricada pela Roche. O governo, sabiamente, importou um lote inteiro do medicamento, e o disponibilizou na rede pública, que é distribuído mediante receita médica. 
 
O Tamiflu é um remédio que possui aplicações específicas e que precisa ser usado nas primeiras 48 horas após o surgimento dos sintomas. Não deve ter livre acesso na farmácia, para evitar uso inadequado, e evitar também que as pessoas façam estoque dele em suas casas.
 
Em relação às vacinas, a população ainda tem muitas dúvidas. Como a diferença entre a trivalente e a quadri/tetravalente. Como isso se aplica?
 
A trivalente é a que o Ministério da Saúde tem aplicado há vários anos. Ela tem três cepas. A do vírus H1N1, isolada inicialmente na Califórnia, em 2009. A do vírus H3N2, isolada em Hong Kong em 2014, e a cepa do vírus B, isolada em Bribane, em 2008.
 
Já a quadri ou tetravalente possui, além dessas três cepas, uma quarta variação, do vírus B, de Phuket, de 2013. Esta cepa, em particular, ainda não foi detectada em nosso hemisfério. 
 
Portanto, a corrida pela vacina tetravalente não se justifica e seu custo benefício precisa ser avaliado de maneira cuidadosa. Se ela custar mais caro, por exemplo, não vale a pena. Porque a trivalente já imuniza para os três vírus que circulam em nossa região. 
 
Quando se faz a vacina pela primeira vez, recomenda-se repetir a dose daí a trinta dias, em crianças. 
 
É importante dizer que a vacina não causa gripe e nem outras doenças, mesmo porque a vacina contém apenas parte do vírus. Destacar esta informação é muito importante, porque existe uma crença entre a população de que tomar a vacina causa gripe. E muitas pessoas deixam de se imunizar por conta disso. 
 
Esta pode ser a explicação para esta contaminação mais exacerbada que estamos vivendo agora?
 
LF: Uma das hipóteses para a contaminação aumentada é justamente o fato de as pessoas terem deixado de se vacinar em 2015, a despeito de ampla campanha feita pelo Ministério da Saúde. O calendário foi inclusive estendido, e mesmo assim não se conseguiu atingir a meta. 
 
Lembrando que estudos epidemiológicos da gripe mostram que a vacina proporciona uma proteção fugaz. Isto é: a imunização começa em quatro a seis semanas depois da aplicação da dose, quando haverá uma produção plena de anticorpos. A tendência é que esta proteção se mantenha e vá caindo, durando em torno de dez meses. Após este período, o indivíduo fica desprotegido. Este fato é importante e deve ser levado em conta nesta análise sobre os motivos que levaram a população a ficar tão vulnerável ao vírus. 
 
Fora a vacina, quais as medidas preventivas contra a gripe?
 
LF: O vírus da gripe se propaga através das gotículas produzidas pela tosse ou por meio do catarro. A contaminação é pessoa a pessoa, e se intensifica em aglomerações. É muito comum que a pessoa contaminada coloque a mão à boca quando tosse, e depois propague o vírus através das mãos. Por isso, é importante lavar as mãos com frequência e utilizar álcool gel na impossibilidade de utilizar água e sabão. Isso diminui muito a contaminação. O uso da máscara quando há tosse também é fundamental para segurar as gotículas. Mas é muito importante que essa máscara seja trocada de tempos em tempos. Utilizar a mesma máscara por períodos prolongados é ineficaz. Se houver tosse seca, recomenda-se a troca da máscara a cada quatro horas. Em caso de tosse com secreção, que deixa a máscara úmida, a troca deve ser ainda mais frequente. 
 
Qual o objetivo da campanha deflagrada pela FEHOESP sobre o assunto?
 
LF: O fato de sabermos que a gripe estava vindo nos fez pensar em uma estratégia para mobilizar o setor, e a população. Alertamos os hospitais, que já estão acostumados a lidar com o processo infeccioso, para a importância de segregar pacientes, e mantê-los com máscaras e álcool gel. Essa simples medida ajuda muita na prevenção, porque evita que a gripe se propague num ambiente de enorme circulação de pessoas. 
 
Ao separar o paciente com suspeita, fornecendo-lhe máscara e álcool gel, evita-se que ele contamine seus familiares, os acompanhantes, outros pacientes. E mesmo que o diagnóstico seja descartado, o próprio paciente se protegeu da contaminação. 
 
Também gostaríamos, ao falar sobre o tema, de tranquilizar a população. E reafirmar nossa capacidade em lidar com esta questão. Estamos preparados para agir. 
 
Foto: Neuza Nakahara