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"Temos a faca e o queijo nas mãos para resolver os problemas da Saúde no Brasil"

20/05/2020

Yussif Ali Mere Jr deixa, no próximo dia 1º de junho, a presidência do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp), após sete anos e meio à frente da entidade. Na data, toma posse a nova diretoria, eleita em abril, que tem como presidente o médico Francisco Balestrin.

Nessa entrevista, Yussif Ali Mere Jr fala sobre sua experiência no comando do maior sindicato patronal da área da saúde na América Latina, conquistas, os desafios que persistem e seus planos para os próximos anos à frente da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FEHOESP). Leia, a seguir, a entrevista.

 

SindHosp - O sr foi presidente do SindHosp por mais de sete anos e deixa agora a presidência para se dedicar à FEHOESP, ao Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios de Ribeirão Preto e Região (SINDRIBEIRÃO) e à Associação dos Hospitais do Estado de São Paulo (AHESP). Que avaliação, ou balanço, o sr faz dessa experiência à frente do Sindicato?

Yussif Ali Mere Jr - Nós preparamos o SindHosp, desde o início da nossa gestão, para se modernizar. A modernização foi feita não apenas em seu espaço físico, como também em tecnologias e em suas ações. O sindicalismo até então existente era aquele que fazia as convenções coletivas, trabalhava os direitos dos prestadores na área da saúde, mas sabíamos e sabemos que temos que fazer mais. Precisamos trabalhar as relações pessoais, as relações institucionais e como o setor da saúde vai se relacionar com a população brasileira. Sabemos que a tecnologia vai mudar totalmente a relação médico-paciente e as relações institucionais nos próximos anos. Preparamos o SindHosp para o novo sindicalismo, aquele sem a obrigatoriedade do imposto sindical. Estaremos cada vez mais próximos do nosso representado para convidá-lo a estar conosco de modo voluntário, até porque ele não é mais obrigado a isso.

 

SindHosp – Como foi a concepção, a escolha dos nomes para a diretoria recém-eleita que assume em 1º de junho, que traz o dr Francisco Balestrin como presidente?

Yussif Ali Mere Jr - Nós montamos essa chapa com o mesmo intuito com que montamos a última. Buscamos representatividade de todos os segmentos dentro da saúde. O dr Luiz Fernando Ferrari Neto, que é e continuará como vice-presidente do SindHosp, tem muito crédito na formação dessa nova diretoria, pois conversou com muitas lideranças até formarmos um grupo de pessoas que fosse muito mais representativo do que todas as diretorias que tivemos até hoje. Com os nomes escolhidos, discutimos quem seria o presidente e, naturalmente, surgiu o nome do dr Balestrin. Ele vem com toda a experiência de gestão e liderança em importantes instituições, como a International Hospital Federation (IHF) e a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), além de um ótimo relacionamento com os players do setor da saúde estaduais, nacionais e internacionais.

 

SindHosp - Qual a sua expectativa com relação à nova diretoria que assume em junho?

Yussif Ali Mere Jr - A expectativa é de que seja uma gestão muito mais participativa por parte dos diretores, porque a diretoria foi montada de maneira heterogênea. Nós temos representantes de todos os setores da saúde, portanto, nossas reuniões serão muito frutíferas. Ganhamos em conhecimento, representatividade e, com o dr. Balestrin como presidente, também ganhamos em notoriedade.

 

SindHosp - O sr falou sobre um novo sindicalismo. Como o sr analisa hoje o movimento sindical no Brasil e, em sua opinião, que papel os sindicatos devem desempenhar?

Yussif Ali Mere Jr – Não podemos mais falar sobre sindicalismo de uma forma pura, pois temos que trabalhar o sindicalismo junto com o associativismo. Nosso papel nesse momento é mostrar que o sindicalismo, junto com o associativismo, pode trazer para o setor grandes benefícios, por exemplo, mais diálogo com todos os players e gestões mais transparentes.  As entidades têm que trabalhar de uma maneira muito mais fluida, para que a prestação de serviços seja mais eficiente, produtiva, que a saúde do cidadão seja mais bem cuidada e cada vez melhor. E aí entra o nosso papel. Hoje, por exemplo, estamos em um momento muito difícil para falar de saúde porque estamos no meio de uma crise. É a primeira pandemia do século 21 e está muito parecida com a da gripe espanhola, no início do século 20. Ou seja, nós estamos revivendo a situação pandêmica de 102 anos atrás.

 

SindHosp - O sr deixa a presidência do SindHosp mas continua como presidente da FEHOESP. Com dois presidentes distintos, que tipo de relacionamento o sr espera que prevaleça entre as entidades?

Yussif Ali Mere Jr – É importante dizer que eu apenas estou deixando a presidência, mas continuo associado e diretor do SindHosp. Não saio da presidência do Sindicato com a sensação de missão cumprida, muito pelo contrário, vamos continuar trabalhando pelo SindHosp, pela FEHOESP, pela AHESP e pela saúde do Brasil como um todo. Neste momento de pandemia, precisamos ter em mente a necessidade de construirmos um setor diferente após essa situação. A Covid-19 nos trouxe ensinamentos importantes, como os leitos de UTI. Leitos de UTI não são um gargalo no Brasil por causa da pandemia, eles sempre foram um gargalo no Brasil, mas neste momento foram construídos milhares de leitos a toque de caixa e por que não antes? A pandemia nos mostra que temos a faca e o queijo nas mãos para resolver os problemas da Saúde no país.

 

SindHosp - O sr acredita que a pandemia mudará os gargalos do SUS, como por exemplo, a falta de acesso e de continuidade de tratamentos, fila de exames e falta de leitos?

Yussif Ali Mere Jr - Com certeza a pandemia está nos fazendo repensar a saúde pública na esfera federativa. Por exemplo, há governos estaduais e prefeituras muito mais preocupados em resolver efetivamente o seu problema. Hoje, a capilaridade das nossas unidades básicas já é grande e muito boa, então se as nossas unidades básicas tiverem para onde encaminhar exames e pacientes cirúrgicos e de UTI, praticamente resolvemos a maioria dos problemas de saúde. O ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, falava sobre Distritos Sanitários no Brasil. Nosso país teria pelo menos 400 distritos com uma população de 500 mil habitantes cada um. Se conseguirmos materializar isso, fica muito mais fácil trabalhar a necessidade de UTI, leitos cirúrgicos, salas de cirurgias, exames complementares e Unidades Básicas que, diga-se de passagem, já existem.

 

SindHosp - Além da FEHOESP, o sr também preside o SINDRIBEIRÃO e a AHESP. Como funciona o sistema representativo da saúde e como essas entidades se relacionam ou podem se relacionar com a Federação?

Yussif Ali Mere Jr - A FEHOESP é uma Federação sindical e, da mesma forma que haverá mudança do sindicalismo para se juntar ao associativismo no SindHosp, também haverá mudanças na FEHOESP. É aí que entra o papel das associações, como a AHESP e a ABCDT (Associação Brasileira de Centros de Diálise e Transplante). Nós temos muito o que trabalhar para fazer valer a frase de que “a saúde é uma só”. De fato é, e não podemos ter partidos e bandeiras. Precisamos envolver mais entidades para provar aos entes públicos municipais, estaduais e federais que para a população ser mais bem atendida e melhorarmos os indicadores sociais é preciso investir mais em saúde.

 

SindHosp - Quais os principais temas que as entidades representativas precisam trabalhar em prol do setor privado?

Yussif Ali Mere Jr - O principal tema a se trabalhar é a integração. Hoje, a saúde suplementar é totalmente separada da saúde pública, mas os prestadores não são. As entidades do setor vêm para mostrar ao poder público que temos o mesmo prestador de serviços trabalhando para o SUS e para a saúde suplementar. Para a enfermeira, a técnica de enfermagem, o fisioterapeuta, a psicóloga, o fonoaudiólogo ou qualquer pessoa que esteja tratando o paciente, não importa se ele é da saúde pública ou privada. O que importa é que ele seja bem acolhido e cuidado. Esse é o discurso correto.

 

SindHosp - O sr acredita que existe um cenário para que a reforma tributária, que era no início do ano a grande pauta do Congresso, avance hoje no país?

Yussif Ali Mere Jr - Infelizmente eu não vejo condição de discutir reforma tributária atualmente por dois motivos. O primeiro, obviamente, é a pandemia. O segundo é o governo federal, especificamente o presidente da República e seu modo de tratar a pandemia. Como ele faz questão de criar crises políticas e institucionais fica muito difícil você discutir reforma tributária e encontrar consenso com tantos interesses em jogo. Porém, as discussões para que ela aconteça um dia já existiram e não estão nem estarão perdidas. Acredito que elas voltarão em tempo oportuno mais maduras e trarão, não só para a saúde, mas para a sociedade brasileira, uma simplificação e uma condição de crescimento melhor do que nós temos atualmente.

 

SindHosp - Quais os pontos positivos e negativos do Brasil no combate à pandemia?

Yussif Ali Mere Jr - Os pontos positivos são que, de uma maneira ou de outra, boa parte da população está se comportando exatamente como deve. Também temos o SUS, com uma capilaridade importante. Destaco também o Estado de São Paulo, que é o epicentro da crise e tem respondido melhor com ações, isolamento social, leitos, profissionais, capacidade, conhecimento e recursos financeiros para tentar minimizar o que está acontecendo. Tenho esperança de que a saúde vai melhorar muito no pós-pandemia. Talvez não tenhamos feito o ideal em termos de saúde pública, mas abrimos um caminho que precisa evoluir, gerar a integração público-privada dos agentes de saúde e, quando falo em agentes, não falo só de pessoas, mas de entidades, prestadores de serviços que tratam tanto da saúde suplementar quanto da saúde pública. Voltamos no discurso de que a saúde é uma só, é assim que deve ser. O que diferencia o que é púbico ou privado é o financiamento. Infelizmente como ponto negativo cito mais uma vez a posição do governo federal, especificamente do presidente da República e do entorno dele - familiares e assessores mais próximos, que não sabem avaliar nada e apenas corroboram com o que o seu líder fala.

 

SindHosp - Quais suas aspirações como empresário, líder setorial, cidadão e médico?

Yussif Ali Mere Jr - Eu não posso mais dividir a minha atuação como médico da minha atuação empresarial dentro da medicina. Eu me sinto muito bem como médico, porém meu braço médico junto aos meus pacientes, atualmente, é minha filha. Hoje estou junto com meus pacientes por intermédio dela. Minha aspiração é ver a saúde do brasileiro evoluir junto com a saúde suplementar e a saúde pública e que haja essa integração, que haja a efetiva parceria público-privado. Existem muitas áreas em que isso dá certo. Precisamos implementar isso na saúde.

 

SindHosp - Que manchete o sr gostaria de ver estampada nos principais jornais do Brasil e do mundo?

Yussif Ali Mere Jr - Saiu a vacina contra a Covid-19.