ONU prevê fim da epidemia de Aids

Durante a divulgação do relatório anual sobre a situação da doença no mundo, o Unaids revela uma ousada ambição: zerar o número de novas infecções até 2015

No ano em que a epidemia global de Aids completa o trigésimo aniversário, a humanidade se debate entre comemorar vitórias contra o vírus HIV e lamentar as ainda duras derrotas que se repetem. Só no último ano, cerca de 1 milhão de novos casos da doença foram registrados. As notícias não são, contudo, apenas negativas. As mortes em decorrência da infecção despencaram 18% desde meados dos anos 2000 e o acesso aos medicamentos antirretrovirais, como na África subsaariana, cresceu 21%. Ontem, no lançamento do Relatório da Situação da Epidemia de Aids de 2011, o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV-Aids (Unaids) divulgou sua mais ambiciosa meta: controlar a doença em todo o mundo nos próximos quatro anos – na prática, isso representaria decretar o fim da epidemia como ela é conhecida até hoje.

Segundo o relatório, estima-se que 34 milhões de pessoas vivam atualmente com Aids – um crescimento de 17% em 10 anos, o que significa 5,4 milhões de infectados a mais. Embora o aumento de soropositivos pareça uma péssima notícia, em um primeiro momento, os especialistas garantem que esse é, paradoxalmente, um bom indicador. “A quantidade de novos casos está praticamente estável, mas o número de pessoas com a doença cresce por avanços no acesso ao tratamento”, conta o diretor do Unaids no Brasil, Pedro Chequer. “Ou seja, há mais pessoas com HIV porque mais gente está usando os medicamentos e sobrevivendo”, explicou, durante o lançamento do documento.

Outro ponto positivo apontado pela agência vinculada à ONU é o avanço no controle da epidemia na África subsaariana, uma das regiões mais pobres do mundo, e que ainda concentra 70% dos novos casos do mal. Em Botsuana, por exemplo, o acesso ao tratamento cresceu de pouco mais de 20% dos infectados, em 2004, para cerca de 90% nos dados mais recentes. De 1997, no auge da epidemia, até 2010, o número anual de novas infecções no subcontinente caiu 27%. “Há apenas alguns anos, parecia impossível falar sobre o fim da epidemia em curto prazo. No entanto, a ciência, o apoio político e as respostas comunitárias estão começando a dar frutos claros e tangíveis”, afirmou o diretor executivo do órgão, Michel Sidibe. A meta do Unaids é zerar o número de novas infecções, as mortes decorrentes da doença e a discriminação aos soropositivos até 2015.

Apesar dos avanços apresentados, uma série de obstáculos – alguns antigos, outros nem tanto – precisará de respostas eficazes para que a meta de erradicação da doença seja alcançada. Em função da crise econômica mundial, os repasses para os fundos internacionais anti-Aids caíram de US$ 7,6 bilhões para US$ 6,9 bilhões . “Com os resultados do encontro de Nova York, esperamos que os repasses dos países ricos voltem a crescer e possamos chegar aos US$ 22 bilhões necessários para o controle da epidemia”, afirma o diretor da Unaids. Considerando esses repasses internacionais e os gastos internos de cada país, atualmente se investem US$ 15 bilhões em todo o mundo no controle da doença. O valor restante precisa ser atingido até 2015 para que a meta de controle da doença tenha alguma chance de ser atingida.

Enquanto a tradicional região onde o vírus mais mata, a África subsaariana, coleciona vitórias contra a doença, em outras áreas ela se apresenta mais incontrolável do que nunca. Nos últimos 10 anos, cresceu 250% o número de pessoas com HIV no Leste Europeu e na Ásia Central. “Tradicionalmente, a epidemia nesses países estava associada a usuários de drogas, em especial a heroína. Esses países não têm tradição de criar políticas para esse público”, conta Pedro Chequer, do Unaids. “Agora, além de nesses grupos, a doença vem crescendo em homens heterossexuais. Os dois fatores unidos justificam o rápido avanço na região”, completa.

Exemplo brasileiro
O documento divulgado ontem destaca o Brasil como um exemplo de políticas públicas de sucesso no combate à Aids. “O Brasil tem investido de forma adequada há anos e foi um dos pioneiros em garantir o acesso à prevenção do HIV e a tratamento para os mais vulneráveis e marginalizados. Em 2008, o país investiu cerca de US$ 600 milhões, um valor próximo do estimado ser necessário para uma resposta em larga escala”, elogia o relatório, comparando a qualidade dos gastos brasileiros com os feitos pela Rússia, que gastou um valor semelhante e não consegue controlar o avanço rápido da doença.

O sucesso brasileiro se deve em parte ao foco de suas campanhas direcionadas a populações mais vulneráveis. “O Brasil foi o primeiro país a investir para a disponibilização do tratamento antirretroviral em larga escala, quando cientistas do próprio Banco Mundial questionavam essa prática”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. “Além disso, o país é o único entre os que têm mais de 100 milhões de habitantes a manter um sistema público, completo e universal de saúde, o SUS, que foi essencial para a interiorização do tratamento”, contou.

Os dados nacionais em relação à Aids só serão divulgados em 1º de dezembro, quando é comemorado o Dia Nacional da Luta Anti-Aids. “Podemos, no entanto, adiantar que a epidemia no Brasil segue o mesmo ritmo da situação mundial, cada vez mais próxima de ser controlada”, afirmou o ministro. “Nos últimos 10 anos, por exemplo, conseguimos reduzir em 45% o número de crianças com menos de 5 anos com HIV”, exemplificou.

Mesmo com os avanços no combate, a doença ainda preocupa em outros aspectos. “Precisamos vencer o desafio do diagnóstico do Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde o número de pessoas que têm a doença e não sabem é alto”, avalia Padilha. “Também temos que agir com mais efetividade entre as mulheres e os jovens, grupos nos quais a doença vem crescendo”, completou o ministro, apontando o segundo grupo como o principal foco das políticas públicas da área.

Para fazer frente à epidemia – que deixa de atingir adultos e bebês para crescer entre os jovens -, o ministério anunciou uma mudança na estratégia de ação. “No lugar das campanhas antigas, estamos fazendo ações mais específicas, por exemplo, em redes sociais, programas populares de tevê e festivais, como a Festa do Peão de Barretos e o Rock in Rio”, afirma o ministro. “A epidemia mudou, e a forma de enfrentá-la também tem que mudar.”

Quanto mais cedo, melhor
O Unaids recomenda que, aos 6 anos, as crianças comecem a receber informações sobre educação sexual e prevenção contra doenças. No Brasil, a recomendação do Ministério da Saúde é de que esse tipo de conteúdo seja introduzido a partir dos 12 anos – medida considerada por alguns setores da sociedade como um estímulo à sexualidade dos adolescentes. A ação, no entanto, foi novamente defendida pelo ministro Padilha, que criticou a posição da Igreja de pregar a abstinência sexual como forma de controle do vírus. “Não é ético assumir posições filosóficas e moralistas que não contribuem para a redução da epidemia.”

Fonte: Correio Braziliense

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