Males causados pela hanseníase e outras doenças são os mais esquecidos

Elas não matam como a dengue ou a leishmaniose, não estão associadas à Aids nem afetam todas as classes sociais. Apesar de ganharem a atenção do universo científico, o mal de Chagas, a hanseníase e a esquistossomose estão adormecidas para a indústria farmacêutica. Na última reportagem da série sobre doenças negligenciadas, é revelado como cientistas sonham com novos recursos para dar passos mais largos na busca por soluções eficientes para os novos casos que surgirão. Em 2010, de acordo com dados do Ministério da Saúde, a esquistossomose atingiu 47 mil brasileiros. Em 2009, a hanseníase fez 37.610 vítimas no país. O mal de Chagas, entre 2000 e 2010, gerou 1.093 casos agudos.

Com o currículo de dar inveja a outros males, o trio tem motivos para estar no grupo dos negligenciados. A velha doença do barbeiro representa uma questão global de saúde pública, 100 anos depois de sua descoberta: sem cura ou vacina, afeta 16 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Num esforço conjunto de instituições de ensino e pesquisa do Brasil ? como a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); o Centro de Pesquisas René Rachou, ligado à Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais; e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ?, em quase 20 anos de estudos pesquisadores criaram uma vacina contra o Chagas. ?Nossos estudos começaram em 1994, quando voltei dos Estados Unidos, onde fiquei por cinco anos na NewYork University trabalhando com o desenvolvimento de uma imunização contra a malária?, conta Maurício Martins Rodrigues, coordenador da pesquisa da Unifesp.

Ele explica que, em seus estudos no EUA, descobriu a importância dos linfócitos T denominados CD8 para a confecção de uma vacina contra o plasmódio, que transmite a doença. ?Os linfócitos T CD8 são um tipo de glóbulos brancos com capacidade de destruir células infectadas por vírus, bactérias e parasitas como os da malária e o Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas. A partir da minha vinda para o Brasil, persegui a ideia de que se fôssemos capazes de gerar esses linfócitos T CD8 contra o Trypanosoma cruzi seríamos capazes de criar uma vacina eficaz contra o mal de Chagas?, diz.

E deu certo. ?Foi feito um modelo experimental de infecção em camundongos, que normalmente morrem quando infectados pelo parasita. Por meio da vacinação, esses animais não só sobreviveram como foram capazes de eliminar completamente os parasitas, ficando curados da doença?, conta Maurício Rodrigues. A dose, contudo, não entrou para os testes clínicos em humanos. Segundo destaca Ricardo Gazzinelli, coordenador-geral do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCT), professor do Departamento de Bioquímica e Imunologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e pesquisador da Fiocruz Minas, a ideia era fazer uma parceria com a indústria farmacêutica para levar a proteção aos humanos.

?Mas não houve interesse, mesmo argumentando que a doença pode voltar com alto nível de transmissão?, diz. De acordo com Rodrigues, durante o desenvolvimento do estudo foram geradas inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, assim como publicações científicas e patentes. ?Todo trabalho feito depende agora de empresas ? privadas ou estatais ? que se interessem por gerar um produto. Nessa fase da pesquisa, esse interesse já teria se manifestado se não se tratasse da doença de Chagas?, lamenta o professor da Unifesp.

Proteína
No mesmo barco do desinteresse está a esquistossomose. Há 16 anos, pesquisadores do Laboratório de Imunologia e Doenças Negligenciadas do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG buscam respostas para a prevenção para o mal. Segundo conta Carina da Silva Pinheiro, doutora em biomedicina e pós-doutora do ICB, existe atualmente apenas um remédio contra a doença. ?O que ocorrerá se ele deixar de ser produzido? Por que não investir em uma vacina??, questiona.

Para responder a essa pergunta, os pesquisadores mineiros têm feito sua parte. Há 16 anos, estão debruçados sobre um projeto para desenvolver uma vacina contra a esquistossomose feita com a própria proteína do verme causador da doença, o Schistosoma mansoni. ?A proteína é capaz de criar anticorpos que conferem resistências contra a infecção, algo útil em um coquetel vacinal?, assegura Carina.

Chamada SM29, a proteína, quando aplicada para imunizar camundongos há cinco anos, apresentou alta proteção. ?Quando a usamos como vacina houve uma redução significativa de parasitas no organismo do animal, cerca de 57%. Tentamos, então, associá-la a uma outra proteína do verme que já foi descrita na literatura com capacidade de redução parasitária, a TSp2. Juntamos as duas, mas a proteção ficou em 36%; ou seja, individualmente, elas têm mais capacidade?, aponta a biomédica, reforçando que a experiência vai ser defendida em estudo de doutorado no próximo ano.

Hanseníase
Apesar de o bacilo da hanseníase, o Mycobacterium leprae, ser ?primo? do bacilo da tuberculose, o Mycobacterium tuberculosis, a doença não recebeu, até hoje, a mesma atenção. Novos desafios, entretanto, apontam o quanto é necessária mais dedicação à enfermidade, considerada a mais antiga da humanidade. ?Tem havido bacilos resistentes à medicação atual?, avisa, preocupada, Isabela Goulart, coordenadora-geral do Centro de Referência Nacional em Dermatologia Sanitária e Hanseníase (Credesh) do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Segundo ela, para conter essa realidade, quatro laboratórios brasileiros vão formar uma rede, ainda este ano, para monitorar essa resistência aos bacilos em pacientes do Brasil. ?Aqui em Uberlândia, vamos monitorar doentes de Minas Gerais, do Distrito Federal, de Goiás e do Maranhão. O Instituto Lauro de Souza Lima, de São Paulo, ficará por conta dos enfermos de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul; a Fundação Alfredo da Matta, de Manaus, fará o monitoramento de toda a Região Norte; a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro será responsável pelo Rio, pelo Espírito Santo e pelo Nordeste?, explica.

De acordo com Isabela, que coordena a rede, uma outra prioridade para a hanseníase é a vacina. ?Há pesquisadores nos Estados Unidos que estão debruçados sobre essa questão com grupos brasileiros envolvidos, como nós em Uberlândia e a Fiocruz do Rio. Queremos ver a possibilidade de começarmos a fase de testes em humanos em 2012?, avisa, reconhecendo que há muitos projetos e pesquisas sobre a doença parados no Brasil por falta de recursos. ?Mal temos no país a garantia do exame de baciloscopia para um diagnóstico certo para hanseníase?, lamenta.

Para saber mais
Em maio, pela primeira vez em Minas Gerais, o Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) reuniu 200 famílias mineiras, que tiveram os filhos separados dos pais por causa da lei federal que previa o isolamento dos portadores de hanseníase. A medida, que colocava os filhos de pais doentes em orfanatos, durou de 1920 até meados de 1980 e deixou marcas severas em uma parte da população brasileira. As crianças eram arrancadas dos seios de suas mães e dos braços do pai, considerados doentes contagiosos. Muitos cresceram sem conhecer os familiares, viveram em orfanatos e, agora, lutam para que o governo federal agilize o processo de indenização por todo o transtorno que passaram. Desde 2007, o país paga a cerca de 8 mil brasileiros, dois salários mínimos como forma de pedir ?desculpas? pelo erro, mas há ainda 4 mil pessoas, a maioria mineira, que aguardam esse ?perdão? simbólico. Em maio, a causa foi abraçada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Deputados elaboraram um abaixo-assinado para enviar à presidente da República, Dilma Rousseff.

Fonte: Correio Braziliense

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