Aplicado em paredes, inseticida para a malária

Pesquisa feita em Benin, no continente africano, revela que uma simples mudança de estratégia conseguiu levar a zero os casos da doença em uma determinada região. Em vez de ser aplicada no ar, substância é colocada dentro das casas

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Pesquisa feita em Benin, no continente africano, revela que uma simples mudança de estratégia conseguiu levar a zero os casos da doença em uma determinada região. Em vez de ser aplicada no ar, substância é colocada dentro das casas

Quem mora na região da Amazônia, na África subsaariana ou no Sudeste Asiático já sabe: no período de chuvas, febre intermitente, com ciclos alternados de calor e frio extremos são sinais de que a malária atacou novamente. Endêmico e sem uma vacina, o mal atinge 500 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Diante do estrago, cientistas buscam alternativas para controlar a doença, que mata 3 milhões por ano. Uma nova pesquisa, publicada na edição desta semana do American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, trouxe, no entanto, uma notícia positiva para quem sofre com o mal. Um inseticida testado em uma região africana onde vivem 350 mil pessoas conseguiu pela primeira vez barrar completamente a transmissão da doença.

O estudo, feito no Departamento de Oueme, sul de Benin, utilizou uma estratégia bastante simples. Em vez de aplicar inseticidas no ar ou nas proximidades dos rios, onde o mosquito Anopheles se reproduz, os pesquisadores levaram a o produto para dentro das casas. A substância escolhida foi o bendiocarbe, um dos produtos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o controle do vetor da malária. Como o produto é altamente tóxico e poderia criar riscos para a saúde dos moradores, os pesquisadores do Centro de Pesquisas Entomológicas de Contou o aplicaram cuidadosamente nas paredes internas.

Os resultados foram surpreendentes: os casos chegaram a zero, o número de mosquitos circulando com o Plasmodium – agente infeccioso da doença – desapareceu e a quantidade de picadas de mosquito nos moradores desabou. Os especialistas acreditam que a estratégia, rápida, barata e eficaz, pode ser utilizada de maneira combinada com outras formas de prevenção, como mosquiteiros e repelentes tópicos – ou seja, para serem utilizados na pele -, além do tradicional fumacê.

A novidade foi comemorada por especialistas em saúde pública, justamente por surgir em um momento crucial para surtos de malária. O piretroide, principal substância utilizada no controle do Anopheles, está se tornando cada vez mais ineficaz, porque o uso massivo do produto vem tornando os mosquitos cada vez mais resistentes. “Nosso sucesso em reduzir drasticamente a transmissão da malária com a pulverização de casas com bendiocarbe é muito importante, porque a resistência ao piretroide está emergindo não apenas em Benin, mas também no Quênia, em Níger, na Nigéria, em Mali, em Camarões e em muitos outros países africanos”, afirmou à imprensa Gil Germain Padonou, médico entomologista coautor do estudo.

O departamento onde a pesquisa foi feita está localizado em uma região de planalto, onde as estações de seca e de cheia são muito bem definidas. Nas demais zonas do próprio Benin, e em outras regiões onde a doença é prevalente, como a Amazônia, onde a presença de água é abundante e constante, os especialistas temem que a estratégia não possa ser utilizada. A pulverização com o tóxico bendiocarbe poderia contaminar rios e lagos.

Caminho aberto
O principal autor do estudo vê, no entanto, vantagens na nova técnica, que vão além do fornecimento de uma nova ferramenta contra a malária. Para Pandonou, o estudo abre uma nova frente de trabalho contra a doença. “Nossos resultados fornecem garantias de que, apesar do aumento na resistência às substâncias tradicionais, a pulverização pode continuar a desempenhar um papel vital na redução das incríveis consequências da malária em toda a África”, explica o beninense.

O objetivo é ampliar ao máximo o número de alternativas, tentando descobrir se outro inseticida pode seguir o mesmo caminho do piretroide. “Precisamos intensificar o apoio aos esforços para desenvolver e testar novos inseticidas e buscar melhores estratégias para usá-los, tais como o rodízio entre vários compostos diferentes, tornando mais difícil para os mosquitos se tornarem resistentes”, afirma o presidente da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene, Peter Hotez

Busca incessante
O desenvolvimento de uma solução definitiva para a malária é objeto de estudo de milhares de cientistas espalhados ao redor do mundo. Nos últimos anos, muitos avanços têm contribuído para que esse objetivo seja alcançado. Em março, um estudo feito por pesquisadores alemães com crianças de Gana, também na África, mostrou que a presença de um gene especificamente ligado à autodestruição dos glóbulos brancos reduz em 30% a chance do desenvolvimento da forma mais severa da doença, que pode levar à morte.

No mesmo período, um artigo publicado no Plos Genetics noticiou que os cientistas tinham, pela primeira vez, conseguido infectar a fêmea do Anopheles com o Wolbachia, um micro-organismo que, além de enfraquecer o inseto, compete com o plasmódio causador da malária, impedindo que ele se estabeleça nos mosquitos – evitando, portanto, que eles se tornem vetores do mal.

Em julho último, surgiu outra notícia positiva. Pesquisadores norte-americanos descobriram que a ivermectina, um popular medicamento veterinário utilizado no controle de ácaros e carrapatos no gado, conseguiu reduzir em 75% a quantidade de mosquitos contaminados em uma região do Senegal. A novidade, no entanto, só é eficaz na variável do mosquito presente na África, e não no Anopheles darligini, responsável pela infecção no Brasil.

Fonte: Correio Braziliense

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