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OMS exagerou ao considerar todo o Estado como área de risco, afirma especialista

OMS exagerou ao considerar todo o Estado como área de risco, afirma especialista

19/01/2018

Diante do aumento dos casos de febre amarela, a Organização Mundial de Saúde (OMS) classificou o Estado de São Paulo como área de risco para a doença. Na prática, isso significa que todos os viajantes internacionais que visitarem qualquer área do Estado dever ser vacinados antes.

Em 77 municípios de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro haverá campanha de vacinação com fracionamento da dose, em caráter excepcional, que tem por objetivo evitar a expansão do vírus nas áreas de fato consideradas de risco. A ação, programada inicialmente para 3 a 17 de fevereiro, já foi antecipada para início no próximo dia 25 de janeiro.

Para tratar dessas medidas e outras questões relacionadas aos casos de febre amarela, o portal FEHOESP360 traz uma entrevista com o médico Roberto Focaccia, infectologista e autor do livro “Tratado de Infectologia”. Confira:

Por que a febre amarela silvestre está chegando às áreas urbanas?
Desde de 1942 não tem ocorrido qualquer caso de febre amarela urbana no Brasil. Porém, o crescimento rápido das cidades aproximou-as da zona rural, confundindo sua limitação. Muitas moradias estão localizadas próximas de matas, facilitando a transmissão para as áreas urbanas. A ocorrência de febre amarela silvestre tem ocorrido isoladamente e até em surtos na zona de matas, porém, ela é transmitida do reservatório principal, que são os primatas, para o homem, através de mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Na zona urbana a transmissão se dá através do Aedes aegypti, que havia sido erradicado desde os anos 80 e retornou com força total nesta década. O combate a esse mosquito em um país continental como o Brasil tornou-se muito difícil, talvez impossível de erradicar.

Acredita que houve falha por parte das autoridades? O fechamento de parques em São Paulo, por exemplo, não foi suficiente?
A única crítica que faço aos gestores é a não vacinação em massa de toda a população quando começaram a morrer macacos por febre amarela, que são os animais sentinelas do perigo. Agora, diante de uma ameaça real, as medidas que vêm sendo tomadas me parecem lógicas. Vacinação das áreas de maior risco indicadas pela morte de macacos nas matas próximas. O fechamento de parques é medida importante, mas apenas complementar.

Uma pessoa contaminada apresenta quais sintomas?
A febre amarela é uma infecção de curta duração e muito diversificada clinicamente. 90% dos casos são assintomáticos ou formas leves. Cerca de 10% apresentam formas graves com alta mortalidade. Nessas formas apresenta icterícia intensa, febre muito alta, sangramentos importantes e comprometimento renal, além de sintomas gerais como dores musculares, náusea, vômitos, artralgia, entre outros. Nas formas graves podem se confundir com hepatite fulminante, descompensação de uma cirrose hepática, leptospirose grave, sepse bacteriana, febre maculosa, dengue e outras febres hemorrágicas. O diagnóstico de certeza somente é fornecido pelos exames de laboratório que detectam o vírus (sorologia, testes moleculares, testes histopatológicos de tecidos orgânicos etc.). Quanto mais rápido o diagnóstico, maior a probabilidade de sobrevida. Como é grande o número de casos mais leves, que se confundem com hepatite, leptospiroses, arboviroses e demais doenças que apresentam icterícia febril, os médicos devem sempre suspeitar de febre amarela diante de quadros mais frustros como esses.

Uma vez detectada a febre amarela, como o serviço de saúde deve proceder o tratamento?
Não há tratamento específico para febre amarela. Os cuidados devem ser gerais em unidades de terapia intensiva, tentando manter o paciente com vida até a regressão da infecção.

Quais os riscos da proliferaçao da doença?
O risco de chegar à área urbana é muito grande, por isso o esforço de vacinação em massa. No Paraguai, em 2008, ocorreu um grande surto de febre amarela urbana controlado com vacinação em massa de cobertura. O problema no Brasil é sua extensão continental e mais de 200 milhões de habitantes. Para piorar a situação falta vacina no mundo, o Brasil produz a vacina, mas por falta de investimento a produção é pequena. O governo optou por ampliar o número de vacinados com um quinto da dosagem, baseado em uma experiência feita no Congo, mas há controvérsias sobre a eficácia por falta de maiores estudos. Se der certo é porque “Deus é brasileiro”. Na minha opinião, corremos um risco muito grande por não termos vacinado há tempos toda a população.

Qual sua opinião sobre a OMS considerar o Estado de São Paulo área de risco para a febre amarela, recomendando a todos os visitantes que se vacinem?
A OMS costuma pecar por excesso, todas as previsões que faz são exageradas. Ela considerou o Estado de São Paulo como um todo, mas não é o que a vigilância epidemiológica relata. Talvez o caso do paciente holandês que adquiriu a febre amarela em Mairiporã tenha levado a entidade a dar uma resposta ao mundo. Ora, a cidade é sabidamente uma área de alto risco devido à Serra da Cantareira. Há sempre o risco em outras áreas, mas acho que foi um exagero.

 

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Da redação (com assessoria de imprensa)
Foto: Eleni Trindade