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A revolução da longevidade

A revolução da longevidade

25/09/2018

O médico gerontólogo Alexandre Kalache é um dos maiores estudiosos sobre envelhecimento no mundo. Para ele, os idosos têm grande poder de movimentar a economia e se reinventar, mas o mercado, as empresas e a própria sociedade ainda não enxergam esse potencial. “Os idosos não estão envelhecendo como os pais ou os avós de antigamente. Não vão ficar arrastando chinelo de pijama dentro de casa, ou fazendo casaquinho de tricô. Vão fazer outras coisas, inclusive ter vida sexual”, sentencia. 

Kalache fez medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi professor associado e pesquisador sênior na Universidade de Oxford (Inglaterra), fundou o Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da London School of Hygiene and Tropical Medicine e dirigiu, entre 1995 e 2008, o programa global de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS). A partir de 2008 passou a ser embaixador global da HelpAge International e membro do Conselho para Envelhecimento do Fórum Econômico Mundial. Hoje é presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil, fundado por ele em 2012, e segue como consultor de instituições internacionais e nacionais. 

Confira a entrevista: 

FEHOESP 360: Muitos países levaram mais de um século para ter uma população numerosa de pessoas mais velhas. Já o Brasil passará de 10% para 20% de idosos em apenas 20 anos. Por quê?  
Alexandre Kalache:
Primeiro pela redução da mortalidade precoce. Em 1970 me formei, trabalhei em hospital de doenças infecciosas e vi crianças morrendo de tétano, difteria, sarampo e pneumonia. Houve uma melhora por questões socioeconômicas, a desnutrição caiu, há melhores condições sanitárias e acesso à alimentação, embora tudo isso esteja voltando agora. Outro fator é tecnologia médica, as vacinas, os antibióticos etc. As pessoas até ficam doentes, mas escapam pelos antibióticos ou não vão ter determinadas doenças porque estão imunizadas. A velocidade do envelhecimento não é só ter um número maior de velhos, mas, também, uma queda das taxas de fecundidade. Nos anos 1970, o número médio de filhos de uma mulher no Brasil era de 5,8. Em 2000, estávamos abaixo da taxa de 1,6, o que é menor que a taxa de reposição que é 2.

 

 

360: Qual o impacto para o Brasil dentro desse panorama?   
AK:
A velocidade da redução da base da pirâmide chama a atenção. Temos menos crianças, adolescentes e adultos jovens. Quando se reduz a base, o topo aumenta. Existe uma disparidade que me preocupa muito. As taxas de fecundidade das brasileiras é um importante indicador socioeconômico. As que tem mais de oito anos de educação formal têm taxa de fecundidade de 1,1, praticamente um filho. As mulheres com menos educação formal e mais pobres vão ter 3,4 de taxa de fecundidade. Para educar os filhos, elas dependem do ensino público, que está péssimo. Os adolescentes chegam ao fim da adolescência com analfabetismo funcional. E são eles que vão tornar esse país produtivo e competitivo ou não. As implicações vão ser imediatas: serão adultos jovens pouco produtivos e pouco preparados. 

“As pessoas precisarão de esforço próprio para envelhecer bem, porque a desigualdade é tamanha no Brasil”

360: O Brasil está sabendo cuidar dos seus idosos em um contexto de famílias menores e sistema de saúde cada vez mais sobrecarregado? 
AK:
O cenário é difícil. Antigamente as famílias eram numerosas e sempre havia mulheres para cuidar de todos. Hoje, elas estão no mercado de trabalho. Quando alguém fica doente não tem mais aquela mulher. Aliás, o verbo cuidar tem gênero porque homem brasileiro não cuida, ele quer ser cuidado. E as doenças que mais matam são as crônicas, causadas por quatro fatores de risco conhecidos: sedentarismo, dieta inadequada, hábito de fumar e consumo de álcool. Por isso, as pessoas precisarão de esforço próprio para envelhecer bem. Se os fatores forem controlados, diminuem-se as doenças cardiovasculares, o câncer, problemas osteomusculares, diabetes e osteoporose. Mas é preciso ir além, porque a desigualdade é tamanha no Brasil que não se pode culpar a vítima. A desigualdade social mata.  

360: Como os setores público e privado podem convergir para beneficiar a população idosa? 
AK:
A epidemiologia mudou com incidência maior de situações crônicas do que agudas. Mas a mentalidade não mudou porque os serviços de saúde tratam e atendem como se fosse situações agudas. A primeira medida é mudar o modelo assistencial. No público é essencial que existam os centros de saúde e de atenção primária porque a maior parte das doenças crônicas pode ser tratada. Infelizmente, o setor público está dilapidado com cortes intensos de verba nos últimos três anos. A segunda medida é incentivar as pessoas a terem mais cuidado consigo próprias e mudar o estilo de vida. Quando mais cedo melhorar a alimentação e deixar de ser sedentário, melhor. Nunca é tarde. Sempre haverá tempo. Já o sistema privado deveria dar mais incentivos para que a pessoa se cuide, fazendo promoção da saúde. As pessoas deveriam ter mensalidades mais baixas quando demonstrarem que estão se cuidando. 

“A necessidade é de políticas de moradia e instituições de longa permanência, mas ainda há a mentalidade de asilo. Isso é fim de vida?”

360: O público idoso precisa de mais serviços e ao mesmo tempo pode gerar mais negócios para o setor. Como o senhor vê a questão?  
AK:
Não há dúvidas que há oportunidades no setor. Se você observar o Brasil hoje, as pessoas com mais de 50 anos têm renda de R$ 1,6 trilhão. É muito dinheiro. Nos EUA são US$ 4 trilhões nas mãos dos baby boomers (geração nascida durante e logo após o fim da Segunda Guerra Mundial). Então se você quiser vender turismo, viagens, seguros, carros, lançamentos imobiliários tem um mercado enorme entre os idosos. O poder de consumo é tão grande que mesmo as pessoas que estão envelhecendo mal no Brasil ainda consomem porque muitos aposentados que são a única fonte de renda da família. Na saúde, as pessoas que têm poder aquisitivo vão pagar seus seguros e buscar os melhores serviços, mas isso ainda é muito acanhado no Brasil. Há poucas residências e instituições de longa permanência de qualidade. Tem de ter imaginação para responder ao envelhecimento e usar as informações disponíveis. Muitos serviços que não existiam há cinco anos hoje dominam o mercado, como é o caso do Uber e do Airbnb. Tem muito idoso que gostaria de ter mais opções de residência ou transformar sua moradia em duas para alugar uma delas e ter mais renda. São várias possibilidades, mas é importante não saírem do local em que vivem. É lá onde está o capital social deles. Eles conhecem até a família do porteiro do prédio. São eles que o ajudam. A necessidade é de políticas de moradia, residenciais e instituições de longa permanência, mas ainda há a mentalidade de asilo. Isso é fim de vida? Temos que tomar cuidado porque nós mesmos podemos ser vítimas disso.  

 

 

360: O senhor criou o termo gerontolescência para definir as mudanças da transição da idade adulta para a velhice. Quanto tempo essa fase dura e por que é importante vivenciá-la? 
AK:
A atual geração de adultos está sendo beneficiada por algo que os baby boomers lhes deram de presente: a construção social da adolescência. Antes da Segunda Guerra, esses jovens tinham de trabalhar para comer. Saíam da infância direto para as lavouras e fábricas aos 12, 14 anos e tinham pouca escolaridade. Quando vieram os baby boomers depois da Grande Guerra, os pais deles acharam que o mundo estava em paz, que as pessoas tinham tomado juízo e festejaram procriando. Por isso o termo boom (estrondo). Foram muitos nascimentos, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Além de serem numerosos, tiveram melhores níveis de saúde, mais vacinas e antibióticos. Cresceu a escolaridade. Assim, mais esclarecida e com mais saúde, essa geração virou a mesa e se rebelou. A influência foi enorme no mundo ocidental. Havia mais dinheiro e tempo, porque já não precisavam trabalhar. 
Simultaneamente, houve a chegada da pílula anticoncepcional, que permitiu às mulheres o controle de sua fertilidade. Tudo isso transformou o mundo. Recentemente foram celebrados os 50 anos de maio de 1968 – ano-símbolo de contestações no mundo. Eu também estava lá lutando contra a ditadura, protestando, porque pertenço a essa geração especial. E não vai ser agora que vamos mudar. Assim como criamos a adolescência, criamos a gerontolescência, porque não estamos envelhecendo como nossos pais, muito menos como nossos avós. Não vamos ficar arrastando chinelo de pijama dentro de casa ou fazendo casaquinho de tricô para os netos. Vamos fazer outras coisas, inclusive ter vida sexual, porque hoje abriu-se outra janela de possibilidades com a criação do Viagra. Infelizmente, a questão de gênero ainda existe. Se a mulher manifesta interesse sexual depois de uma certa idade é taxada de “velha assanhada”. Se for homem, não. Temos o exemplo dos presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, casados com mulheres mais jovens. Mas estamos em um mundo em transformação. A gerontolescência pode durar 25 ou 30 anos a partir dos 55 anos. É uma situação em que a pessoa está liberada. Já criou os filhos, ou não. Deu certo na vida, ou não.  Nesta fase o indivíduo está querendo aproveitar a vida e isso vai até os 80 anos ou até quando se tenha saúde e a sociedade dê espaço. Se não tiver esta liberdade, vamos brigar para ter. 

“O idoso tem que se reinventar e buscar educação continuada. Tem de combater a discriminação. É o último tabu”

360: O programa Cidade Amiga do Idoso, da OMS, estabelece quesitos como prédios e espaços abertos, participação social e apoio comunitário, entre outros, para a qualidade de vida do idoso. Como está o programa? 
AK:
Criamos este projeto em 2005, com base em um piloto em Copacabana (RJ), que é um bairro envelhecido. Montamos a metodologia e ele foi levado para 35 cidades inicialmente. Hoje, está presente em mais de 2 mil municípios pelo mundo. Mas no Brasil existe muito populismo. Prefeitos assinam, mas não têm compromisso e não tem governança para cobrar, o que existe em outros países. Aqui eu ouço o Ministério do Desenvolvimento Social, em um ano eleitoral, lançar algo chamado “Estratégia Brasil Amigo da Pessoa Idosa”. É o mesmo governo que corta verbas de educação e saúde. Então, a pessoa não vai ter acesso à saúde, educação, treinamento e emprego, mas eles fazem um programa populista. Não é assim. Em São Paulo, até que está sendo bem executado o programa Hospital Amigo do Idoso – que incentiva e a apoia a qualificação geronto-geriátrica dos hospitais como referência assistencial que inclui, valoriza e preserva a autonomia  e independência das pessoas acima de 60 anos -, que conta com  a participação de 40 hospitais inicialmente, é uma realização da Secretaria de Estado da Saúde, que inclui desde hospitais como Albert Einstein, Sírio-Libanês e Oswaldo Cruz até o Hospital São Mateus, em São Miguel Paulista, região mais pobre da capital paulista. É possível melhorar desde que tenha seriedade do poder público. 

 

 

360: Quais são os maiores desafios da velhice? 
AK: O idoso tem que se reinventar e buscar educação continuada. Tem de combater a discriminação chamada “idadismo” (que vem do inglês ageism), que é a discriminação contra a idade, da mesma forma que os movimentos negros e feministas fizeram e estão fazendo. É o último tabu. É preciso se preparar para ter uma vida digna até o fim. As pessoas não pensam nisso, mas a verdade é que a maioria delas vai morrer num hospital e essa instituição vai ter que estar preparado para dar qualidade de vida até o fim. Se não quiser morrer entubado em uma CTI tem de fazer um testamento de vontades antecipadas para que isso fique claro para a família e os médicos. Mas existe a cumplicidade do silêncio entre paciente e o profissional de saúde. Um se incomoda com isso, o outro não foi treinado para lidar com a questão. Enquanto ninguém fala, a sociedade não é preparada. 

“É preciso se preparar para ter uma vida digna até o fim”

 

Por Eleni Trindade (entrevista originalmente publicada na Revista FEHOESP 360 - edição nº22 de Julho/2018)
Fotos: Leandro Godoi | Vídeo: Ricardo Balego | Edição de vídeo: Rebeca Salgado